São José do Egito, 1985. Vive em São Paulo

“A senhora D., dona de casa, casada, 74 anos, recebeu o diagnóstico de uma psicose incomum devido à sua crença de que seu marido fora substituído por um outro homem. Ela se recusou a dormir com o “impostor”, trancou seu quarto à noite, pediu uma arma ao seu filho e lutou contra a polícia que tentou hospitalizá-la. Ela reconhecia outros membros da família e confundia apenas seu marido.” A partir da análise desse caso, ocorrido em 1923, o psiquiatra francês Jean Marie Joseph Capgras passou a reconhecer a doença que denominou ilusão dos sósias, e que depois veio a se tornar a Síndrome de Capgras, em sua homenagem. Nela, ocorre uma quebra entre a memória visual e a afetiva, fazendo com que um conhecido se apresente como estranho.

O que teriam em comum a síndrome de Capgras, a Apotemnophobia, As meninas, de Velázquez, David Carradini, e Chelsea Manning? Aparentemente desconexos, esses temas e personagens são reunidos na performance Plums of Chelsea Manning [As ameixas amargas de Chelsea Manning]. Sozinho, no palco escuro do teatro do Sesc Sorocaba, Deyson Gilbert fala uma língua inventada, próxima do alemão, envia mensagens por whatsapp para o público e exibe slides com o auxílio de um desconhecido eleito no momento da apresentação. Organizada como uma peça de cinco partes, a apresentação invoca temas da experiência sensível do mundo, da falta, de ações inconscientes, e do fim da história. Grandes, complexos e insolúveis, esses conceitos são costurados por meio de uma lógica associativa, e também da estranheza, produzindo o fascínio da aproximação de um mistério a ser solucionado. Afinal, certos processos estão visíveis e presentes, mas algo acontece e não os reconhecemos, como o marido da senhora D.

[J. A]