O Nome do Boi

Rede de artistas de diversas regiões do Brasil, O Nome do Boi organizou-se em 2016 para responder à crise política no país, assumindo estratégias artísticas e políticas variadas para deflagar resistências. Busca, assim, tecer um testemunho público deste momento da história brasileira por meio de contranarrativas que, rascunhadas por múltiplos autores, sejam capazes de denunciar personagens e motivações dos projetos de poder em disputa. “Dar nome aos bois”, como diz a expressão popular.

Para a Trienal, O Nome do Boi trabalha em articulação com diferentes espaços e agentes de Sorocaba, promovendo encontros, debates, oficinas e ações conjuntas que tomam corpo tanto na unidade do Sesc como em outros locais e percursos pela cidade. Entre as atividades propostas, a programação conta com oficinas gráficas no Espaço Educativo e uma série de procissões pelas ruas da cidade, acompanhadas por bicicleta de som e de material produzido em ateliê coletivo.

Cleverson Salvaro

A análise do contexto expositivo costuma ser o primeiro passo de Cleverson Salvaro para elaborar suas obras, que dizem muito sobre a conjuntura geográfica, econômica, social e cultural dos lugares que habita. Em Frestas, Salvaro é artista residente e desenvolve uma proposta de intervenção urbana e expositiva com restos de construções, pedras e outros materiais encontrados pela cidade. Tal ação partiu da impossibilidade de realizar um outro projeto: a construção de uma ruína monumental no terreno apelidado de Trevo da Morte pelo alto índice de acidentes, na estrada que liga as cidades de Sorocaba e Votorantim. Sua investigação remete a discussões sobre território e fronteira, porém carrega um dado mais específico em sua localização. Durante anos, houve disputa judicial entre os dois municípios pela retenção dos impostos do Shopping Esplanada, edificado na divisa de ambos.

A escultura proposta também remeteria a outro imbróglio de Sorocaba: uma estrutura de cerca de vinte metros de altura conhecida pela população local como Aranha do Vergueiro. Erguida originalmente na década de 1960 para ser uma grande igreja, a construção de concreto lembra uma aranha e encontra-se abandonada. Salvaro planejou realizar sua escultura em camadas, de modo que pudesse ser abandonada assim que os recursos destinados à construção se esgotassem. A obra foi idealizada para ser largada ainda incompleta – sua descontinuidade seria intencional e sua concepção se originou na perspectiva de falência do projeto. Com a impossibilidade de ocupar o local desejado por questões de segurança, as ruínas deste monumento que sequer existiu foram de uma vez espalhadas por pontos da cidade e pela exposição, desmanchando-se no tempo e no espaço de Frestas e Sorocaba.

Panmela Castro

Rio de Janeiro, 1981

O espaço de visibilidade de Panmela Castro se dá no embate contra o machismo,  o patriarcado e a normatização binária dos corpos, e a estética dos contos de fada, do mundo “cor-de-rosa”. Integrante e articuladora de redes de feminismo por meio da arte urbana, como a NAMI, Castro já grafitou muros no Rio de Janeiro, Cochabamba, Oslo, Miami, Israel, Nova York, Berlim e Paris. Suas composições recorrem a palavras de ordem e a figuras femininas, com detalhes de faces iluminadas por pontos de luz que por vezes se sobrepõem a elas, criando tonalidades fortes e avermelhadas.

Obras

Femme Maison [Dona de casa], 2017
instalação
COLABORAÇÃO Elizabeth da Silva e Artha Baptista
PARTICIPAÇÃO Clara Averbuck
#femmemaison #frestas2017

Daniel Escobar

Santo Ângelo, 1982. Vive em Porto Alegre

Por meio de uma arqueologia e da apropriação de materiais, Daniel Escobar transmuta imagens efêmeras de consumo e desejo, como as geradas as geradas pela publicidade para o mercado imobiliário e turístico. Em Especulação imobiliária (2014), vitrines de acrílico foram parcialmente preenchidas com peças oriundas de jogos infantis de construção encapadas com impressos de divulgação de lançamentos imobiliários. Já em Anuncie aqui (2014), o artista instalou uma placa de outdoor no espaço expositivo, disponibilizando-o para locação e veiculação de anúncios comerciais.

Outra temática abordada por Escobar são as estratégias de publicidade do mercado de arte e os mecanismos de exibição da obra de arte, entre o âmbito privado das coleções e a esfera pública. Em Conjugado (2016), um ambiente doméstico, planejado por um arquiteto de interiores, ocupa o espaço expositivo. O arquiteto teve autonomia para escolher o cômodo, o mobiliário, a iluminação e a obra do artista que compõe a decoração do ambiente. Em A arte da conversação, que apresenta na Trienal, Escobar realiza acordos para retirar cinco letras da sinalização de diferentes estabelecimentos comerciais e com elas formar a palavra “sonho”. Unidas por um novo significado, cada uma das letras indica características tipográficas e materiais do local de origem, que, enquanto isso, lida com a ausência de uma das partes do seu letreiro externo.

Obras

A arte da conversação, 2012/2017
tipografia em metal dos estabelecimentos ESAMC Sorocaba, Chamonix
Plaza Hotel, Pet Shop Canino’s, Mecalight, Sex Shop Paradise
FOTOGRAFIAS André Pinto

Maria Thereza Alves

São Paulo, 1961. Vive em Berlim

Um vazio pleno (2017) discute a omissão da presença indígena na história de Sorocaba. Em colaboração com o ceramista guarani Maximino Rodrigues, Alves confeccionou réplicas de urnas funerárias, moringas e cacos presentes no Museu Histórico Sorocabano. O material foi inserido em diversos pontos na região central da cidade, reinscrevendo sua presença no espaço público e no imaginário local.

Em diálogo com a família do líder guarani Joaquim Augusto Martim, fundador da Aldeia Yyty, no pico do Jaraguá, a artista convidou as educadoras guarani Eunice Martim e Poty Poran para realizar uma conferência sobre a realidade guarani no estado de São Paulo. A fala teve início no largo de São Bento, diante do monumento a Baltasar Fernandes, bandeirante fundador de Sorocaba, e foi seguida de caminhada até a praça Dr. Arthur Fajardo, junto ao monumento a Rafael Tobias Aguiar, fundador da Polícia Militar.

O conjunto de entrevistas em vídeo, apresentadas na unidade, foram gravadas com câmera de celular por estudantes indígenas no campus de Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), como parte de um workshop de arte contemporânea indígena ministrado pela artista.

Obras

Um vazio pleno, 2017
técnica mista
FABRICAÇÃO DE CERÂMICA Maximino Rodrigues, Michely Aquino Vargas, Aldeia Jaguapirú
WORKSHOP DE CERÂMICA Giselda Pires de Lima Jera, Aldeia Tekoa Kalipety
PALESTRA Poty Poran Turiba Carlos, Aldeia Tekoa Tenode Porã e Eunice Augusto Martim, Aldeia Tekoa Yyty
FOTOGRAFIAS Michely Aquino Vargas
ASSISTENTE DE PROJETO Wilma Lukatsch
POSTER Valeria Hasse
PRODUÇÃO E DIREÇÃO DOS VÍDEOS  PET Conexões Saberes Indígenas ( tutoria: Profa. Dra. Monica Caron ; estudantes: Alberto Cruz, Jeika Kalapalo, Jheniffer B. Oliveira Pêgo, Kelly Holanda B. Caetano, Laerte R. Tsimbarana’õ, Lucas Pinto Quirino, Lucilma I. Spinelli, Nailson M. Tomaz, Rayana da S. Freire, Rosângela B. Braga, Samuel Afonso e Solange T. Paique)
EDIÇÃO DE VÍDEOS Bruno Lotelli
AGRADECIMENTO Universidade Federal de São Carlos – Campus Sorocaba (UFSCar); Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS); Associação Bethel; Capela Senhor do Bonfim João de Camargo

Fabiano Marques

Santos, 1970. Vive em Berlim

Durante a ditadura militar, entre 1976 e 1978, Fabiano Marques morou em Sorocaba. Na época, seu pai era juiz e sua mãe, professora de geometria. A memória da cidade e o desejo de refletir sobre o papel do poder judiciário na situação política atual do país, à luz da leitura crítica de acontecimentos passados, unem-se na possibilidade de investigar, com um grupo de estudantes de direito, processos julgados naquele período de sua infância.

Em Os processos (2017), Marques trabalha em colaboração com estudantes e professores da Universidade Paulista (Unip) de Sorocaba para selecionar e escrever sinopses e vereditos para os autos dos livros de registros da 1a Vara do Fórum de Sorocaba. O objetivo é anexar esse material ao arquivo oficial, tornando-o acessível à consulta pública,algo ainda não realizado com a documentação do período.

Libra (2017) consiste em uma escultura em metal que, instalada de modo a poder ser vista contra o céu, aponta para a constelação cujo nome pega emprestado. Na obra, as estrelas se convertem em vértices ligados por linhas com medidas proporcionais às de suas respectivas distâncias da Terra. A distorção pela perspectiva a aproxima da forma cônica de um telescópio e recoloca a questão da parcialidade da visão, sempre estabelecida a partir de um lugar.

[Y.R.]

Obras

Libra, 2017
ferro
CONSULTORIA DE ASTRONOMIA Martha Terenzzo e Axel Jaccobs
AUTOCAD Gabriela Lessa

Os processos, 2017
WORKSHOP COORDENAÇÃO JURÍDICA Elisa Rosa
PARTICIPANTES alunos do curso de Direito da Faculdade Unip de Sorocaba

Nunca

São Paulo, 1983

Desde meados dos anos 2000, Francisco Rodrigues da Silva, mais conhecido como Nunca, emprega na escala urbana seus desenhos e pinturas de grandes proporções. Ao lado de outros grafiteiros da mesma geração, como Os Gêmeos, Spetto e Ninca Pandolfo, Nunca começou a trabalhar em São Paulo mas levou sua produção a outras metrópoles do mundo. Entrou para o circuito institucional e para o mercado de arte contemporânea contribuindo para fortalecer o debate, a recepção midiática e o público da arte urbana.

Figurativas e dotadas de características marcantes, as intervenções de Nunca evocam elementos do passado brasileiro e de um repertório gráfico no qual o regional está em colisão com um imaginário cosmopolita atual. Povos originários, de gente mestiça, de hábitos e tradições diversos, são levados a conviver com signos da culturas pop e de massa, da vida e dos conflitos de raças, classes, interesses e territórios nas cidades.

Também na forma, o artista propõe diversidade. Uma polifonia visual de cores vibrantes preenche campos em oposição a desenhos com contornos e hachuras em preto, que conferem escala e volume ao assunto representado. A partir de um esboço preliminar, as obras costumam ser adaptadas in loco e só ali ganham sua forma final. O contexto de Sorocaba motivou uma obra inédita do artista. Inaugurado na Trienal, o enorme mural da praça Coronel Fernando Prestes tem suas condições e sua permanência submetidas à dinâmica da cidade, durante e depois da mostra.

Obras

Fundadores, 2017
acrílica e spray
AGRADECIMENTO Edifício Francisco Paula Simone
e Sorocred

André Komatsu

São Paulo, 1978

Parte de uma geração de artistas paulistanos que desde a virada dos anos 2000 investiga modos de pensar a esfera pública, André Komatsu concebe trabalhos de forte carga matérica e construtiva, que decodificam, no tempo e pela ação, noções estanques de espaço aos quais estamos habituados. O artista também lança mão de um amplo e heterogêneo vocabulário conceitual e formal, que tenciona as relações de poder e as negociações inerentes ao convívio em ambientes urbanos.

Do início da carreira, Oeste ou até onde o sol pode alcançar (2006) é uma performance registrada em vídeo. O próprio Komatsu percorre de maneira hercúlea um trecho longo na cidade de São Paulo, na tentativa de acompanhar integralmente o trajeto do sol, do extremo leste ao extremo oeste do perímetro urbano. Além desta obra, um projeto inédito foi pensado para uma praça de Sorocaba, em frente à rodoviária. Feita em ferro, vidros e espelho, a estrutura conjuga opostos como contenção e abertura, passagem e impedimento, vista e opacidade, público e privado.

Edson Barrus

Carnaubeira da Penha, 1962. Vive e trabalha no Recife

O artista iniciou em 1999 uma pesquisa para a criação de uma nova raça de cachorros. Formado em zootecnia, o artista desenvolveu uma observação das espécies que, somada a pesquisas plásticas e sobre teoria e crítica de arte, tornaram-se a estrutura do projeto Base central cão mulato. O cachorro vira-latas aparece em obras paradigmáticas da literatura brasileira, a exemplo de Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto. Esses personagens correspondem a tentativas de representar a mestiçagem no país. A hibridização dos seres e da cultura, sua convergência, formação, práticas e poéticas dirigem a atenção do artista.
Barrus foi convidado a integrar o programa de residências de Frestas, dentre outras ações, para plantar uma muda de Imburana no Jardim Botânico de Sorocaba. A madeira é muito utilizada pelos artesãos do agreste de Pernambuco para esculpir santos. Em ameaça de extinção, tem sido foco de investimentos da Associação de Santeiros de Ibimirim, responsável pelo plantio de cerca de mil árvores. O artista aderiu à causa e organizou um projeto de financiamento coletivo (crowdfunding) para adquirir um lote de terras destinado ao reflorestamento, contrariando a especulação imobiliária que vem ocorrendo na cidade. Assim como em Base..., configura-se, dessa forma, uma escultura socioambiental, no sentido de algo que articula agentes por uma intervenção real.


Obras

Projeto imburana, 2017
técnica mista
PARTICIPAÇÃO de Yann Beauvais, diretor
do filme Derrubada não!